Há 4 anos atrás recebi a chamada da minha tia Rosa por volta das 6h da manhã, ainda sem a noção da realidade disse ao Bernardo para nos vestirmos, para levar a Eva aos meus sogros e irmos para o IPO. Eu ainda achava que o ia buscar para casa. Ainda estava com o coração apertado por ele ter ficado aquela noite. Vi a minha mãe a chorar junto dele. Agora tento imaginar o que ela pensou naquela noite, junto da cama dele, nos seus últimos suspiros. Disse-nos que o ouviu a chamar pela mãe dele.
Tudo lhe deve ter parado ao pensamento. A vida dela estava à alguns meses a descair mas naquela noite tudo mudou efetivamente. A nossa vida mudou. A vida do meu papy mudou. Há 4 anos atrás dei-lhe a mão pela última vez e ele ainda a fechou contra a minha (já só era o corpo a fechar-se). Há 4 anos atrás, eu estava a preparar o funeral do meu papy com a minha cabeça mas o meu coração estava com ele noutro sítio. Ainda não tinhado tomado a bebida da realidade. Isso aconteceu mais tarde. Lembro-me de ter ligado à minha amiga para lhe contar. Lembro-me de ela ter começado a chorar muito e eu também. Depois lembro-me de estar já em casa e de ver a minha avó materna a chorar na sala. Lembro-me de a consolar e dizer que íamos ficar bem.
Ainda falo do meu pai no presente, embora conte a história no passado obviamente. Uma das últimas conversas com o meu pai foi sobre a sua eventual morte e ele disse-me que eu tinha de aguentar, que ele também tinha perdido os seus pais e aguentou. Acho que essa chapada de palavras me ajudou a respirar fundo nos dias seguintes. Um pai é sempre um pai, uma filha é sempre uma filha e não há eternidade que mude isso. Dure o tempo que a eternidade durar.
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